Ilusão

Meu cavalo era cego
grande, branco, era SHANTIH!
Enxergava um palmo à frente
Eu olhava mais adiante

Hoje a criança encantada
Um cowboy fora da idade
Com a visão do homem velho
Vê que é a felicidade

Anúncios

Minhas experiências espirituais

Entendo que o significado do que vem a ser conhecimento espiritual está embutido no conceito de morte. Creio que o esforço necessário para o ser humano viver e trilhar o caminho do auto conhecimento envolve a compreensão do inevitável processo da sua morte. Esse caminho se desenvolve através da capacidade de apreendermos e entendermos de maneira lógica os ensinamentos que a vida vai nos oferecendo para ultrapassarmos o medo da morte.
Todos os corpos vão ter um fim natural. E, perceber que a cada momento isso já esta acontecendo é essencial. Uma das minhas experiências espirituais mais difíceis e enriquecedoras foi entrar em contato com a morte de alguns entes queridos.
A primeira experiência foi com um amiguinho quando eu tinha quatro para cinco anos. Brincávamos todos os dias nos quintais próximos de casa e um dia ele ficou doente. Seus pais foram a vários médicos que não conseguiram descobrir o que ele tinha, nem salvá-lo. O que me marcou muito nesta experiência foram as perguntas que nossos pais nos faziam… querendo saber se tínhamos brincado com alguma das macumbas que colocavam nos terrenos baldios. Com tantas perguntas sobre o assunto comecei a acreditar que aquelas oferendas visavam a morte de alguém! Por muito tempo convivi com a idéia de que meu amigo morrera porque tocara em uma oferenda espiritual.
Outra oportunidade de aprendizado foi no Instituto Médico Legal, onde participei de um projeto para informatização das rotinas burocráticas. Recebíamos um formulário com a descrição dos corpos que davam entrada no Instituto e, elaborávamos uma lista para facilitar quem buscava pessoas desaparecidas. Eu tinha medo de percorrer os corredores do prédio imaginando encontrar espíritos perambulando. E, temia também, deparar com o corpo de alguma pessoa conhecida.
Neste trabalho percebi que a todo momento nascem e morrem pessoas e eu só tomei consciência disso naquela rotina. Percebi que tal qual as células do nosso corpo surgem e desaparecem, nascem e morrem seres a todo momento. Comecei a entender que somos pequenas células de um corpo maior que é o universo em constante mutação. E, no dia que encontrei o nome de uma pessoa conhecida foi um choque, mas dali em diante compreendi que qualquer nome deveria ser encarado como sendo de uma pessoa querida por mim. Foi a forma que encontrei de melhor conviver naquele ambiente. E, de encarar a realidade.
Outras experiências marcantes foram as mortes da minha avó e dos meus pais. Minha avó, muito querida, teve um morte tranquila. Faleceu em casa dormindo. Meu pai também faleceu em casa na presença de minha mãe; passou mal, deitou-se, fez o sinal da cruz e se foi. Eu não estava em casa mas alguma coisa me “avisou” senti uma brisa forte me envolver e, sem motivo lembrei do meu pai, logo depois minha mãe me dava a notícia por telefone.
A experiência com a velhice e morte da minha mãe foi mais dolorosa. Cuidei muito dela quando ficou doente e precisou de cadeira de rodas. Teimosa, nunca aceitou a sugestão de ir morar em minha casa. Um dia resolveu aceitar. Empacotou suas coisas, colocou nome dos netos e parentes em vários pacotes para doar tudo no dia seguinte. Antes de sair de casa passou mal, ainda lúcida foi levada para o hospital onde entrou em coma vindo a falecer duas semanas depois exatamente no dia em que faria noventa e três anos.
Hoje posso dizer que a calma e a tranquilidade das circunstâncias das mortes destes meus entes mais queridos me trouxeram uma paz inexplicável com relação à vida e à morte.

Fantasias espirituais que enfrentei:
Quando busco por um momento espiritual difícil que passei na vida, me vem à memória algumas experiências com a morte. É muito bom estarmos vivos e colhermos ensinamentos com a morte.

E uma dessas experiências se deu enquanto trabalhava como escrivão de polícia. Fiz parte de um grupo de policiais que tinha o objetivo de implantar um sistema informatizado na Polícia Técnica do Rio de Janeiro. Éramos cerca de trinta policiais que em duplas deveriam estudar as tarefas burocráticas para a introdução de computadores visando agilizar as rotinas.
A designação das duplas foi feita por sorteio e, para estudar as rotinas do Instituto Médico Legal foi sorteada a dupla Rui Paulo Portela da Encarnação e Luis Carlos Alminhas. Essa coincidência já deu margem para muitas piadas: “Alminhas” e “Encarnação” trabalhando no Instituto Médico Legal.

Nosso trabalho era relacionar minuciosamente os procedimentos em todas as seções do IML. Isto queria dizer que deveríamos assistir e anotar todas as atividades denvolvidas desde a entrada de cadáver até a liberação para sepultamento, desde a chegada de uma pessoa agredida até a confecção do laudo de lesão corporal, desde o início de uma perícia balística até a sua conclusão. Para isto percorrendo sala por sala.

E, para atender melhor as pessoas que buscavam entes queridos desaparecidos decidimos criar uma lista dos cadáveres recolhidos ao Instituto e elaboramos um formulário a ser preenchido pelos auxiliaries de necrópsia que davam entrada nos corpos, de posse destes formulários, então divulgávamos duas listas: uma com os corpos identificados e outra com os que não possuiam identidade mas com uma descrição todas as características possíveis. Fiquei com esta responsabilidade

Já início duas coisas me apavoravam muito. Primeiro porque precisava percorrer vários corredores para chegar ao portão de entrada dos rabecões e às vezes sentia medo e muitos arrepios ao passar por determinados lugares me sentia observado ou sendo seguido. Como frequentava um centro espírita e lia muitos livros espíritas sempre achava que a qualquer momento iria topar com um fantasma ou espírito. Mas o medo só surgia durante o percurso, quando voltava para a sala dos computadores com os formulários tudo passava. Então começava outro suplício, desenvolvi um grande pânico imaginando que na lista iria encontrar nomes de pessoas conhecidas. Meus medos se resumiam em, a qualquer momento ver um “espírito ou, ter que colocar na lista o nome de um ente querido que havia se tornado um “espírito”.

Nunca vi fantasmas mas um dia recebi um formulário com o nome de uma pessoa muito querida que morrera numa colisão de veículos. Foi um grande choque. Mas depois do susto, daquele dia em diante, não tive mais medo da morte nem de mortos. Passei a ler a lista como se cada pessoa fosse muito querida pra mim e, tentava imaginar como teria sido a vida das pessoas encontradas na via pública como indigentes. Parece que o medo se desfez quando o que mais temia aconteceu. Passei a ver a morte de uma maneira mais natural mas respeitosamente.

Como Yoga e Vedanta entraram na minha vida.

Yoga entrou na minha vida, ou melhor, minha vida foi preenchida pelo Yoga quando buscava alguma coisa que me fazia uma grande falta, mas não sabia direito do que se tratava. A minha juventude foi vivida em escolas militares. Depois de chorar dois finais de ano seguidos por não ter passado na prova de admissão para o Colégio Militar, chorei de alegria ao passar para o de Belo Horizonte onde cursei o ginásio no regime de internato; conclui o científico no do Rio de Janeiro e ao terminar ingressei na Escola de Aeronáutica, ser militar já não fazia parte dos meus sonhos, mas voar transformou-se num barato total, gíria da época. Estávamos vivendo os anos de ditadura, eu gostava de ler jornal e, de repente, conclui que não era mesmo aquela vida que queria e, numa tarde de sexta-feira, voltando pra passar o fim de semana em casa, “alguma coisa me disse” que deveria abandonar aquela “carreira de futuro”. Pedi pra sair e passei dois anos viajando de carona pelo Brasil sem saber direito o que fazer da vida. Meus pais acharam que estava “jogando a vida fora”. Eu só tinha certeza de que não sabia o que queria. Mas a vida que abandonei já tinha me marcado.

Lendo uma entrevista do Hermógenes que estava lançando um livro fiquei sabendo que ele havia sido professor do Colégio Militar, li, adorei e comecei a praticar Yoga sozinho pelo livro Autoperfeição com Hatha Yoga, treinei asanas, pranayamas e segui lendo livros sobre o pensamento oriental. Com a vida seguindo seu curso e com o Hatha Yoga me vi buscando emprego. Trabalhei no IBGE, na Receita Federal, na Polícia Civil como Escrivão – grande escola de vida – e no TRT/RJ como técnico judiciário onde a vida começou a me preparar para aposentadoria. Em cada instituição colhi grandes ensinamentos. Casei e ganhei da vida, um casal de filhos lindos. Enfim minha vida se reorganizou digamos, socialmente. Mas, porque não parei de praticar e ler sobre Yoga, comecei a sentir falta de um grupo para desenvolver a minha prática. Encontrei minha mestra Annabella Magalhães que me introduziu nos estudos da mitologia Indiana e do sânscrito. Pelas mãos dela conheci outro mestre, Paulo Murilo Rosas que me introduziu na prática o Dakshina Tantra Yoga e acabei fazendo um curso de instrutor.

E lendo um livro do meu mestre Paulo Murilo, ouvi falar de Vedanta. Pronto cai nos braços Glória Arieira com a sensação de que sempre frequentei o Vidya Mandir, não sabia, mas havia reencontrado o meu caminho. O que estava procurando desde o início. A disciplina. Não só a militar, mas uma disciplina mais aprimorada, com uma sintonia mais fina, a disciplina necessária na busca do “quem sou” “porquê estou aqui”, do autoconhecimento que, afinal foi o que me fez abandonar aquela “carreira de futuro” e praticar o Yoga que mantém meu corpo pronto para estudar Vedanta que me esclarece os caminhos e labirintos criados pela minha mente. Glória Arieira me abriu as portas e seu discípulo Jonas esta me conduzindo pelas dependências desta mansão de sabedoria chamada Vedanta. Como ambos os ensinamentos Yoga e Vedanta influenciaram e me influenciam é difícil detalhar. Cada asana deixa uma lição. Cada texto ensina uma postura. Tentar explicar é mais ou menos como se uma célula buscasse entender a vida do corpo do qual ela faz parte e concorre para o processo da vida. Ela é o corpo e não sabe. Atualmente só sei dizer que a cada momento me sinto mais em paz dentro destes ensinamentos.